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Ser mãe atípica e profissional do transporte: como conciliar desafios e fortalecer redes de apoio

01/04/2026

Abril é o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), conhecido como Abril Azul. Mais do que falar sobre inclusão, é um momento de dar visibilidade às mães que vivem essa realidade diariamente — inclusive aquelas que também enfrentam as jornadas intensas do transporte.

Ser mãe atípica já exige força, organização e resiliência. Ser mãe atípica e profissional da estrada é um desafio ainda maior. Entre escalas, viagens, longas distâncias e responsabilidades no volante, essas mulheres conciliam cuidado, trabalho e amor com coragem admirável.

Quando a estrada encontra a maternidade atípica

No transporte, a rotina muitas vezes envolve horários alternados, plantões, viagens longas e pouco tempo em casa. Para mães de crianças autistas, que precisam de acompanhamento terapêutico, rotina estruturada e atenção constante, essa organização exige uma rede de apoio ainda mais sólida.

Aqui entram família, parceiros, escolas, terapeutas e, principalmente, informação.

Histórias reais de mães que vivem essa jornada

Ana Paula Felix – motorista de ônibus e mãe

Para a motorista de ônibus Ana Paula Felix, a maternidade atípica trouxe mudanças importantes na vida profissional.

Antes, ela trabalhava com fretamento e turismo, mas precisou migrar para o transporte urbano para ter uma rotina com horários mais previsíveis e conseguir acompanhar o tratamento do filho autista.

Sem uma rede de apoio estruturada, ela organiza sua rotina entre terapias, escola e trabalho.

“Ser mãe atípica na profissão de motorista é muito desafiador. Precisei mudar toda a minha rotina para conseguir cuidar do meu filho e continuar trabalhando.”

Mesmo com dias difíceis e pouco descanso, Ana Paula encontra forças para seguir em frente.

“O diagnóstico do autismo não é o fim da estrada. É apenas uma nova rota. A mesma mulher que dirige um ônibus também tem força para conduzir milagres na vida do seu filho.”

Adriana – apoiadora do Movimento A Voz Delas e mãe atípica

A apoiadora Adriana recebeu o diagnóstico de autismo da filha durante um momento importante da sua vida: o processo de troca da CNH.

Como foi um diagnóstico tardio, aos 12 anos, muitas situações passaram a fazer sentido para ela.

“Foi um misto de sentimentos, mas também um alívio, porque passei a entender melhor minha filha e a forma como ela vê o mundo.”

Diante dessa nova realidade, Adriana decidiu priorizar a maternidade e, por enquanto, abriu mão de seguir na estrada como caminhoneira.

Hoje, ela atua como apoiadora do Movimento A Voz Delas, ajudando outras mulheres a encontrarem oportunidades e fortalecendo a rede de apoio dentro do setor.

“Cada mulher que conquista uma oportunidade realiza um pouco do meu sonho também.”

Para ela, falar sobre maternidade atípica dentro do transporte é essencial para que mais mulheres se sintam acolhidas e compreendidas.

Cheila Oliveira da Silva – caminhoneira e mãe atípica

Para a caminhoneira Cheila Oliveira da Silva, a maternidade trouxe um dos maiores desafios da sua vida. Seu filho recebeu o diagnóstico de autismo ainda pequeno, após uma longa busca por respostas e muitas idas a hospitais e especialistas.

“Quando recebi o diagnóstico, foi um choque. A gente passa por um momento de luto, porque imagina muitas coisas para o futuro do filho e precisa aprender uma nova forma de cuidar e amar.”

Hoje, seu filho ainda precisa de cuidados constantes no dia a dia, o que torna a conciliação entre trabalho e maternidade um grande desafio. Cheila explica que, muitas vezes, a mãe precisa escolher entre estar na estrada ou dedicar mais tempo ao cuidado do filho.

Mesmo diante das dificuldades e do cansaço, ela acredita na importância de buscar apoio e compartilhar experiências.

“Ser mãe atípica exige muita força. Por isso é tão importante ter uma rede de apoio e lembrar que nenhuma mãe precisa enfrentar essa jornada sozinha.”

Direitos garantidos por lei

Muitas mães não sabem, mas existem direitos importantes assegurados por lei às pessoas com TEA e seus responsáveis.

Entre eles:

• Atendimento prioritário (Lei nº 10.048/2000)
• Inclusão da pessoa com TEA como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais (Lei nº 12.764/2012 – Lei Berenice Piana)
• Acesso a terapias pelo SUS
• Possibilidade de Benefício de Prestação Continuada (BPC), conforme critérios sociais
• Direitos educacionais com suporte adequado

A informação é uma ferramenta de autonomia. Conhecer os direitos ajuda essas mulheres a garantirem dignidade e acesso aos serviços necessários.

A importância do acolhimento

Além dos direitos formais, existe algo que transforma: acolhimento.

Muitas mães relatam que, antes de encontrarem uma rede de apoio, enfrentavam preconceito, isolamento e até julgamentos. No setor de transporte — historicamente masculino — falar sobre vulnerabilidade ainda é um desafio.

Criar espaços seguros para compartilhar experiências, dúvidas e conquistas é fundamental. Às vezes, o que mais fortalece é ouvir:

“Você não está sozinha.”

“Você está fazendo o seu melhor.”

“Estamos aqui.”

Representatividade importa

Quando uma motorista ou caminhoneira compartilha sua história como mãe atípica, ela inspira outras mulheres que talvez estejam vivendo a mesma realidade em silêncio.

Dar visibilidade a essas histórias é mostrar que é possível conciliar maternidade, profissão e sonhos — mesmo diante dos desafios.

O compromisso do Movimento

O Movimento A Voz Delas acredita que inclusão também é falar sobre maternidade atípica, saúde emocional e rede de apoio.

Neste Abril Azul, reforçamos a importância da informação, do respeito e da empatia — dentro e fora da estrada.

Porque cada mulher carrega muito mais do que um volante nas mãos.

Ela carrega histórias, lutas, amor e força. 💙🚍🧩
 

*Para sua segurança, não escreva seu CPF, endereço ou número de telefone no comentário. Se precisar de ajuda individual, use nossos canais de atendimento direto.

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