Quando o mundo desmoronou, foi o volante que me sustentou

23/03/2026

Val tem 48 anos, é mãe de uma filha de 22 e mãe de três pets — dois adotados e um resgatado, que, segundo ela, “são tudo pra mim”. Mas foi na estrada que ela construiu grande parte da sua história.

O sonho começou cedo. O padrasto, motorista de ônibus, foi sua grande inspiração.

“Ele era meu exemplo pra seguir.”

Ela cresceu vendo o padrasto dirigir. Quando moravam em Minas, depois em Rondônia e mais tarde no Mato Grosso, foi com o volante nas mãos que ele criou os quatro filhos da mãe dela.

“Ele criou a gente na direção.”

Val lembra das marmitas levadas com carinho, das idas até o ponto final, das pequenas voltas de ônibus que viravam uma festa.

“A gente entregava a marmita e às vezes dava uma volta com ele até o ponto final. Era uma festa pra gente.”

O tempo passou, mas a admiração virou propósito. Dos filhos do primeiro casamento do padrasto, foi ela quem seguiu o legado.

“A única que seguiu os passos dele fui eu. E eu tenho certeza que fui um orgulho pra ele.”

Quando começou a dirigir ônibus, por volta de 2002 ou 2003, ele e a mãe chegaram a dar uma volta com ela na linha que fazia perto da casa da tia.

“Eu senti que era um orgulho muito grande pra ele. E pra mim também.”

Mesmo sabendo que o transporte é um ambiente majoritariamente masculino, decidiu começar. Sua trajetória teve início com entregas, dirigindo caminhão pequeno pelas ruas. Também trabalhou em posto de combustível. Desde o começo, enfrentou olhares desconfiados e resistência.

“Ser motorista é muito difícil. É um mundo muito masculino.”

Depois vieram novas oportunidades: transporte de passageiros, treinamentos, coleta urbana, entrega de combustível, turismo e viagens com grupos musicais. Cada fase trouxe aprendizados. Cada desafio fortaleceu ainda mais sua determinação.

Ao longo de mais de 20 anos de estrada, viveu situações que infelizmente ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres no volante.

“Já teve passageiro que não quis embarcar porque eu era mulher.”

“Já me tiraram de serviço pelo mesmo motivo.”

O preconceito apareceu em viagens, em eventos, em ambientes dominados por homens. Mas ela nunca permitiu que isso definisse sua trajetória.

Houve um período em que pensou em desistir. Resolveu deixar a profissão e trabalhar em salão, fazendo unhas e cabelo. Mas longe do volante, algo começou a se apagar por dentro.

“Eu comecei a entrar em depressão.”

Foi então que entendeu que dirigir não era apenas um trabalho. Era parte da sua identidade.

Depois da separação, quando a vida pareceu perder o rumo, foi justamente a profissão que a manteve de pé.

“Quando meu mundo desmoronou, foi a minha profissão que me sustentou.”

“Foi ali que eu tirei forças pra continuar, pra dar segurança pra minha filha e pros meus cachorros.”

A filha cresceu entre partidas e chegadas. Não foi fácil.

“Ela cresceu um pouco longe da mãe por causa da profissão. Não foi fácil pra ela, nem pra mim.”

Mas foi através do trabalho que ela conseguiu manter a estrutura da casa e seguir firme.

Hoje, atua no transporte voltado ao esporte, conduzindo equipes de base e profissionais. Um ambiente ainda desafiador — mas onde tem conquistado respeito com profissionalismo e dedicação.

“Mulher ou homem é profissional. A gente está ali pra exercer a atividade e dar o nosso melhor.”

Em 24 de setembro de 2024, o padrasto partiu, vítima de um infarto fulminante. A dor permanece, mas também permanece o legado.

“É muito difícil perder alguém que a gente ama. A gente nunca está preparado.”

Apesar das dificuldades, Val reconhece que a estrada também a fortaleceu. São mais de 20 anos enfrentando desafios, preconceitos e recomeços — sempre com resiliência.

Para as mulheres que sonham em seguir a mesma profissão, o recado é claro:

“Não importa a idade. Se alguém disser que você não pode, levante a cabeça. Você pode. Nós podemos.”

“Nunca desista dos seus sonhos.”

Muitas pessoas a enxergam como exemplo. Ela ainda está aprendendo a se ver assim. Mas sua história já inspira.

Porque, para ela, a estrada nunca foi apenas caminho.

Foi força.
Foi reconstrução.
Foi sobrevivência.

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3 Comentários

Day 23/03/2026 12:35

Meus olhos estão cheio de lágrimas, lendo a história da Val! Que emoção! Tive o previlégio de conhecer essa história de perto, dividir a cabine com ela, e sim ela é uma inspiração e exemplo para mim! Parabéns a voz delas por trazer essas histórias de superação e exemplo para nós mulheres! Sucesso sempre Val!

As Estradeiras 23/03/2026 12:33

Cada história contatada aqui nos faz entender o verdadeiro propósito da nossa caminhada. Parabéns Val conte sempre com a gente.

Adriana Santos 23/03/2026 12:32

Parabéns Val, sua história é inspiração. Se orgulhe disso.